O resgate de nossas raízes na tela do cinema

Cinescola provoca a reflexão nas escolas do Município

Por Ana Flávia Scarelli | 19/10/2006

Nhô Quim perambula com seu cachorro pelo interior paulista sonhando com duas coisas: encontrar uma noiva e comer carne de vaca. Ele conhece a jovem Carula, que reza todos os dias para Santo Antônio pedindo que lhe arranje um marido. Para fisgar Quim, ela o engana dizendo que seu pai, Nhô Totó, possui um boi que será carneado no dia do casamento. Entretanto, antes de casar, Quim deve cumprir uma série de provas.

O filme A Marvada Carne (1985), dirigido por André Klotzel, vem sendo exibido para alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Rede Municipal de Ensino de Praia Grande dentro do projeto Cinescola, da Secretaria de Educação (Seduc).

Criado pelo professor e comunicólogo Renato Paes, da Coordenadoria de Esportes e Cultura nas Escolas, o Cinescola ensina a ler e entender a linguagem cinematográfica e estimula e desenvolve o raciocínio reflexivo e crítico através da análise de filmes.

“Nossa idéia é formar o público para o cinema e despertar o interesse pelos filmes. Participar do Cinescola não é simplesmente uma distração. Trabalhamos com inúmeros objetivos. Um deles é discutir a língua, a temática, a estrutura do filme”, afirma Renato Paes.

O filme – Este é o segundo ano do projeto. Em 2005, o filme trabalhado foi Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes, que traçava o paralelo entre cinema e vida real.

“A Marvada Carne foi escolhida por trabalhar o universo do caipira paulista, resgatando nossa identidade por meio de causos que nos chegam pela oralidade”, explica Renato Paes.

A cada exibição, os estudantes, de 1ª a 4ª série, são orientados a prestar atenção em detalhes como cenário, fotografia, figurino e trilha sonora. Após a apresentação, ocorre o debate. “Pedimos atenção para todos os elementos que compõem a chamada sétima arte”, afirma o comunicólogo.

“Apresentamos um filme premiado em sua época”, disse Paes aos alunos da escola Maria Nilza Romão, na última apresentação. “Mesmo antigo, o filme resgata os ‘causos’ que a gente ouve até agora. E evidencia também a importância que o caipira tem para o Brasil e seu desenvolvimento”.

O professor enfatizou aos estudantes que todos nós devemos ter orgulho de quem somos. “Somos caipira porque o Brasil é interior, assim como somos caiçaras, já que moramos na beira do mar; mas somos também nordestinos ou sulistas, já que temos o direito de sair de qualquer lugar e ir para outro. Por isso é importante ter orgulho de nossa identidade caipira. Prestem atenção aos detalhes”, pediu.

Renato Paes destacou que a proposta é resgatar causos e histórias em sala de aula. “Sigam o exemplo dos personagens do filme, que não têm medo de ir atrás de seus sonhos. Quando nos voltamos para dentro de nós mesmos, fazemos uma grande descoberta”, desafiou. “Então, não tem de ter vergonha de ser caipira; de olhar para dentro de si mesmo e descobrir seus sonhos, nem que seja como o da mocinha do filme: arrumar marido”, brincou.

Os alunos aprovaram o projeto. José Alves Neto contou que iniciativas diversificadas, como o Cinescola, aumentam a vontade de aprender. “Aprender de maneira diferente anima, ainda mais para quem voltou a estudar depois de um certo período da vida”. Apolinário Rodrigues, que cursa a 1ª série do ensino fundamental com José Neto, contou que nunca havia assistido a filme num telão. “A gente aprende e se diverte”.

Calendário – A Marvada Carne será exibida em mais três unidades até o final do ano. No próximo dia 27, na escola Domingos Soares de Oliveira, e nos dias 9 e 23 de novembro, Roberto Shoji e Wilson Guedes, respectivamente. Informações pelo telefone 3496-2362, na Coordenadoria de Esportes e Cultura nas Escolas.