Mulheres que vivem com Aids recebem apoio no SAE

Serviço oferece atendimento especializado

Por Pablo Solano | 23/2/2007

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A cada 15 dias, um grupo de mulheres se reúne religiosamente para compartilhar dramas e conquistas, para contar a trilha que seguiram após receberem a notícia de que haviam se contaminado pelo vírus da Aids. Os encontros ocorrem no Serviço de Assistência Especializada (SAE) de Praia Grande, mantido pela Coordenação Municipal de DST/Aids/Hepatites. Ao mesmo tempo em que buscam apoio dos profissionais de saúde, elas oferecem suporte para quem deseja superar o baque inicial e encarar o problema.

“Os encontros são como uma zona de conforto para as mulheres”, afirma a psicóloga Adriana Oliveira. Apesar de os medicamentos surgidos no final dos anos 1990 melhorarem as condições de tratamento, o esforço para levar a vida com normalidade ainda é grande. “As pessoas com o vírus enfrentam uma luta diária”.

Ao contrário do que se imagina, a maioria das mulheres atendidas no SAE se contaminou em relacionamentos estáveis. “É necessário que exista diálogo dentro do relacionamento. Elas não podem se colocar numa condição passiva. Precisam propor o uso do preservativo. A vulnerabilidade aumenta quando as pessoas se imaginam fora de qualquer risco.”

Se para as mulheres com famílias a manutenção do tratamento é um problema, para as solteiras o desafio é se abrir para um novo relacionamento. “Com a Aids, elas se fecham. Mas é preciso amar novamente”, afirma Adriana Oliveira. “Claro que ninguém deseja colocar o outro em risco. E para não agravar seu quadro de saúde, o soropositivo deve evitar qualquer possibilidade de uma dupla-infecção ou de contrair outras doenças.”

Na jaqueta - A instrumentadora cirúrgica Terezinha Ribeiro Alves, 53 anos, é exemplo de como o apoio da família auxilia no resultado do tratamento. Freqüentadora do grupo, ela conta que conheceu seu ex-companheiro em uma praia de Santos, em 1988. Com ele, viveu na Capital por mais de dez anos.

“Em 1994, ele teve uma hemorragia. Enquanto estava sendo atendido, precisei procurar uns documentos em casa”, relata Terezinha. “Acabei mexendo numa jaqueta. No bolso encontrei alguns comprimidos e uma guia para atendimento no centro de referência para Aids em Santos, para onde ele descia todo mês para buscar medicamento. A hemorragia já era um efeito da Aids. Foi a partir disso que descobri que estava infectada pelo HIV e também pelo vírus da Hepatite C.”

Terezinha acredita que ele já era portador da doença quando o conheceu. “Passei a viver uma realidade que não fazia idéia que existia”. No início do relacionamento, conta que utilizava camisinha nas relações. Mas com o tempo, abandonou a proteção. “Quando você pensa que está praticamente casada acontece uma coisa dessas”, lamenta.

Curiosamente, em meados dos anos 80, Terezinha atuou como instrumentadora cirúrgica no Hospital Emílio Ribas, na Capital, local que recebia os primeiros casos reconhecidos no Brasil. Ela retornou ao hospital praticamente um ano após saber que vivia com o HIV para atuar como voluntária.

Terezinha afirma que a religião e trabalhos voluntários a ajudaram a superar o momento e a seguir o tratamento. Nunca sentiu os efeitos da doença, mas desenvolveu diabetes, o que credita ao abalo emocional quando soube que estava infectada. “Muita gente não assume a doença. É necessário aceitá-la, assim como os problemas”.

Entusiasta da quebra de patentes promovida pelo governo brasileiro no final dos anos 90, o que permitiu ao País produzir anti-retrovirais e distribuí-los gratuitamente para soropositivos, Terezinha aplaude a iniciativa. “Antes gastava mais de mil reais por mês importando medicamentos”.

Em busca de melhor qualidade de vida, mudou-se para Praia Grande em 1999. Moradora do Guilhermina, afirma que a responsabilidade por conseguir sucesso no tratamento se deve ao apoio da família.

Mas a falta de apoio do companheiro ao tratamento colocou fim na relação. “Cansei. Vi que o tempo que dedicava a ele não estava restando para mim. É necessária adesão total para se conseguir bons resultados.”

Ela também afirma que contou com o apoio de colegas médicos, que não a excluíram do trabalho. No entanto, o mesmo apoio não encontrou ao procurar atendimento junto ao convênio médico. Diante da negativa, reagiu e foi responsável pela expulsão de um cardiologista e um ginecologista do plano.

Leitora da revista Saber Viver, voltada para quem possui HIV, Terezinha acompanha a seção “Contatos Imediatos”, que possibilita o surgimento de novas amizades ou relacionamentos entre pessoas soropositivas.

Gravidez - Simone (nome fictício), 40 anos, também atendida pelo SAE, relata que fez o teste ao ficar grávida do filho caçula. “Abri o resultado dia 4 de maio de 1995. Foi como se o mundo tivesse acabado. Tenho certeza de que fui contaminada por meu marido. Ele saia com outras mulheres”.

Apesar da certeza, resolveu não falar para ele e muito menos procurar tratamento. Sete anos depois, o marido contraiu tuberculose. “Passamos por cinco hospitais até conseguirmos tratamento. Ficou 20 dias em coma. Pensei que estava condenado, mas sobreviveu.” Quando seu marido foi avisado que estava com Aids, Simone conta que ele não se impressionou. Provavelmente já esperava pelo resultado. Desde 2004, a família vive em Praia Grande.

Assim como Simone, todas as mulheres que fazem pré-natal na rede pública são encaminhadas para o teste de detecção do vírus HIV. A medida visa impedir a transmissão de mãe para filho. Essa política permitiu a queda de 51,5% desse tipo de infecção entre 1996 e 2005 no País.

Teste - O sucesso no tratamento depende de seu diagnóstico precoce – o que pode ser feito gratuitamente através do Centro de Testagem, Aconselhamento e Prevenção (CTAP) de segunda a sexta-feira, das 9 às 15h30.

Para fazer o teste, o interessado deve ter mais de 12 anos e apresentar documento de identidade. O resultado sai em 15 dias. Antes, deve assistir à palestra de conscientização. O Serviço de Assistência Especializada (SAE) fica no mesmo prédio do CTAP, na Avenida Presidente Kennedy, 2.030, Guilhermina, telefones 3473-3351 (CTAP) e 3473-4682 (SAE).