Psicóloga defende concepção sociohistórica da adolescência

Para Ana Bock, jovens são represados pelos adultos

Por Nádia Almeida | 13/8/2007

Uma concepção sociohistórica da adolescência foi o que propôs a psicóloga Ana Bock aos profissionais de Saúde e Educação presentes na palestra “Adolescente, adolescências”. O evento, realizado na manhã de segunda-feira (13), no Auditório Jornalista Roberto Marinho, abriu a capacitação “Sexualidade na Adolescência – Responsabilidade de Todos” promovida pelo Programa Municipal DST/Aids/Hepatites aos profissionais de Saúde e Educação dos bairros Sítio do Campo, Vila Sônia e Ribeirópolis.

A capacitação, que prossegue até quinta-feira (16) no Centro de Testagem, Aconselhamento e Prevenção (CTAP), Avenida Presidente Kennedy, 2.030, Guilhermina, às 8h30 e às 13 horas, é o início do projeto “Intervenções Educativas em DST, Aids e Hepatites nas Escolas de Praia Grande”, realizado em conjunto pelas secretarias de Saúde (Sesap) e Educação (Seduc). Nesta etapa serão atendidas escolas municipais dos bairros mencionados, mas a intenção é avançar para outras unidades.

Em sua palestra, Ana Bock discorreu sobre a visão da adolescência como algo universal e apresentou dados contra o que chamou de “naturalização”. Criticando a psicologia por “absolutizar” a adolescência, a palestrante lembrou que a chamada Síndrome Normal da Adolescência, um rol de características comuns a todos nessa faixa etária, se baseou numa época em que a expectativa de vida era de, em média, 65 anos. “O ser humano conquistou mais tempo de vida e um novo desenvolvimento”, explicou.

Flutuação de humor, busca de si mesmo, questionamentos religiosos e rebeldia estão entre as características elencadas em tal síndrome, mas que podem acontecem em qualquer momento da vida. “Vivemos conflitos com outros adultos e familiares. No entanto, o conflito entre os jovens e seus pais é destacado pela sociedade como mais grave”, citou. “Tolera-se a adolescência porque ela passa. Isso vai tornando sua imagem mais negativa e o profissional (que lida com jovens) vai trabalhar com toda essa carga.”

Lembrando que a Revolução Industrial mudou a vida das pessoas, a psicóloga falou da institucionalização das escolas a princípio para cuidar dos filhos das trabalhadoras, depois para formá-los profissionalmente e, enfim, para retardar seu ingresso à maturidade. Segundo ela, com a elevação da expectativa de vida, a concorrência mais acirrada entre adultos e jovens no mercado de trabalho tornou a adolescência bastante conveniente. “Os jovens possuem as condições para se inserir no mundo adulto, mas não estão autorizados a essa inserção”, criticou. “E é por perceber essa limitação e por se sentirem represados que eles se identificam de forma bastante significativa.”

Prejuízos - Entre os prejuízos dessa generalização estão conflitos entre gerações, segundo Ana. “O jovem aprende os recursos para construir suas utopias, mas ninguém deixa testá-las, o que gera unipotências”, acrescentou. Na questão sexual, a situação se repete. “Ele tem idade de fazer sexo, mas não se pode estimular. Ora são responsabilizados, ora não.”

Para a psicóloga, ao entender a adolescência como um processo sócio-histórico, os adultos vão se envolver na construção do indivíduo, abrindo espaço para diálogo e participação. “Vamos dialogar com ele sobre sexualidade ou passar verdades absolutas? São projetos diferentes.”

Outra questão importante é a criação de políticas públicas. “Nosso Estado só constrói políticas públicas para a adolescência quando ela se torna um risco para a sociedade, quando ela nos amedronta”, opinou.

Concluindo, Ana pregou a aceitação das diferenças e a diversidade. “Temos muitas adolescências e um só conceito, a construção social e histórica, que pode nos permitir ver essas várias adolescências”, resumiu.

Ao final da exposição, profissionais de saúde e educação puderam formular perguntas e comentários à palestrante.

Em rede - A coordenadora do Programa Municipal DST/Aids/Hepatites, Dorian Rojas, comentou que a capacitação visa estabelecer parceiras na atenção ao adolescente. “O programa tem tido o direcionamento de organizador dessa rede. Desejamos trabalhar com todos muito próximos”, destacou.

Estavam presentes na palestra o chefe do Departamento de Assistência Pública, Sérgio Nascimento; a coordenadora da Estratégia de Saúde da Família, Hilda Dias; o chefe da Divisão de Especialidades, Jaime Travesso e a coordenadora de Educação Comunitária da Seduc, Ana Paula Gorgulho Lopes, entre outros participantes.

A capacitação prossegue nesta terça-feira (14). O tema da palestra é “Sexualidade na Adolescência – Dimensão Biopsicosocial”, pela psicóloga Ana Cristina Canosa, pós-graduada em Educação Sexual.

Na quarta-feira (15), o padre e educador Ronaldo Zacarias fala sobre “Sexualidade e Ética”.

O ciclo se encerra quinta-feira (16), com o advogado Luis Cláudio Campos, do Núcleo de Prevenção da Coordenação Estadual de DST/Aids, discorrendo sobre “Os Direitos dos Adolescentes”.

Objetivos – No decorrer do projeto, outros bairros serão atendidos. O objetivo, segundo Dorian, é possibilitar o acesso dos adolescentes às informações atuais e em linguagem acessível sobre temas como as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e métodos contraceptivos; identificar situações de vulnerabilidade; direcionar atividades segundo faixa etária e condições socioculturais e proporcionar mais qualidade de vida.

A coordenadora acredita que essa mobilização permitirá a popularização dos serviços de testagem e assistência especializada, sensibilizando esse público quanto à importância do diagnóstico precoce.

Além da capacitação, em outras etapas estão previstas intervenções em escolas dos bairros, oficinas com pais e jovens, palestras educativas e disponibilização de insumos de prevenção.